domingo, 4 de dezembro de 2016

mude sua mente, mude o mundo

imagem do Google

Hoje é domingo, dia nublado com um convite preguiçoso para permanecer na cama. Levantei porque a fome falou mais alto que o quentinho do edredom. Preparei o café e sentei pra ver TV. Parei em um documentário do canal Philos, sem nome ou sinopse. Fiquei por aqui e de repente fez sol dentro e fora de mim.
O documentário falava sobre altruísmo e assisti do ponto que mostrava uma pesquisa realizada na Alemanha, onde um grupo de pesquisadores investigou a partir de que idade as crianças demonstram altruísmo. A pesquisa foi realizada com mais de 100 crianças: individualmente uma criança de 18 meses era colocada em uma sala onde estava o pesquisador, em algumas cenas ele está pendurando um desenho em um varal e derruba um pregador, imediatamente a criança levanta-se pega o pregador e entrega ao homem. Em outras alguém está sentado atrás de uma mesa e derruba uma caneta, tenta alcançá-la mas não consegue, da mesma forma, a criança vai até a caneta, pega e entrega à pessoa.
Depois o grupo de crianças foi dividido em dois: um recebia uma recompensa ao ajudar e o outro grupo não. No grupo que recebia a recompensa o número de ajuda diminuiu e no outro permaneceu igual, o que fez os pesquisadores concluírem que o altruísmo é inato e a educação que oferecemos às crianças muda sua relação com o mundo. Recompensar alguém porque fez algo bom, seria como dizer que quem ajuda ou respeita o outro  deve ter algo em troca, enquanto que altruísmo é simplesmente reconhecer que o outro merece ajuda e respeito independentemente de você ter um prêmio.
Depois a pesquisa foi realizada com bebês de 6 meses: dois pratinhos de biscoitos eram oferecidos ao bebê, que escolhia um e comia. Dois fantoches apareciam em frente aos pratinhos e cada um escolhia um biscoito. Uma estagiária que não sabia da escolha dos bebês e dos fantoches, entrava com os bonecos e os oferecia às crianças, 8 entre 10 escolhiam o boneco que tinha escolhido o mesmo biscoito.
Uma pesquisa foi realizada com adultos: duas pessoas de times rivais eram colocadas em uma sala, um deles levava um pequeno choque e a reação do outro, na maioria das vezes, era a de prazer ou sarcasmo.Os pesquisadores concluíram que desde criança nos aproximamos daqueles com os quais nos identificamos, a questão é que depois de adultos, classificamos o mundo entre os que estão conosco e os que estão contra nós. Essa polarização é um grande desafio para o adulto pois, mudar   depois que crescemos é muito mais difícil do que quando somos crianças.
O documentário apresentou ainda três grandes cientistas do mundo contemporâneo que tem pesquisado o altruísmo: Matthieu Ricard, Tânia Singer e Richard Davidson. Eles falam da plasticidade do cérebro, da criação de neurônios diariamente e de como a meditação pode contribuir com a mudança de pensamentos e atitudes. Apontaram ainda que repetir "Eu sou assim e não mudo" é contraditório, pois ninguém parte de um lugar e chega ao mesmo lugar e que as culturas não mudam de um dia para o outro, por isso, é preciso construir a mudança. Os três estiveram em um Fórum Internacional de Economia em Davos e falaram sobre a importância da meditação e da mudança de pensamento para a sobrevivência do mundo e para a construção de uma economia solidária.
O documentário mostrou também a experiência de três rapazes em Baltimore, nos Estados Unidos. Dois deles cresceram em um bairro com alto índice de violência, um grande número de pessoas encarceradas e intenso tráfico e consumo de drogas. Toda a violência do bairro era refletida na escola, pois os alunos conviviam diariamente com situações que a maioria das crianças na idade deles sequer conheciam. Os rapazes foram para a Universidade e voltaram a morar no lugar da infância. Criaram a Holistic Life Foundation que trabalha com princípios da yoga e da meditação,  ofereceram à gestão escolar a experiência de meditação com alunos e professores. São 15 minutos diários, no início e no final das aulas, e lá se vão cinco anos de trabalho, com diminuição visível da violência escolar, segundo a Diretora, e um espaço aberto para o diálogo e para a empatia . Além disso, dez escolas de Baltimore  aderiram ao programa iniciando uma rede de cuidado e respeito.
Quando desliguei a TV pensei em meu trabalho, em mim, no mundo à minha volta. Há um longo caminho a percorrer na mudança de atitudes, no trabalho coletivo, no exercício da empatia. A escola é um espaço muito importante na transformação. Pensei na Prof.ª Regina Machado que sempre nos faz perguntar "e se fosse possível?" Estou por aqui me perguntando: E se fosse possível, juntos, implantar a meditação nos nossos espaços escolares?

"Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos
fragmentos de futuro em que a alegria é servida como
sacramento, para que as crianças aprendam que o
mundo pode ser diferente. Que a escola,
ela mesma, seja um fragmento do
futuro..." Rubem Alves


domingo, 18 de setembro de 2016

sobre projetos e política


imagem google

Ultimamente todos os meus escritos apontam sobre reflexões pessoais, mas que observo, são também de outras pessoas. Moro em Jacareí, interior de São Paulo, na entradinha do Vale do Paraíba. Estamos às portas das eleições municipais e nas ruas vejo pessoas carregando bandeiras, adesivos, camisetas. Não há problema nenhum nisso, eu mesma fiz a minha escolha e assumi ir às ruas panfletar por um projeto. Eis a diferença. Apoio a única candidata mulher para o cargo majoritário, ou seja, o de prefeito. Sua candidatura, não é exatamente sua, é um projeto lindo! Partimos de um grupo de estudos e depois de um movimento pela qualidade da educação pública com educadores de setores públicos e privados que dialogavam sobre o que é possível fazer. Neste movimento percebemos que se não assumíssemos um projeto que envolvesse os poderes legislativo e executivo, nossa voz morreria na praia. Foi uma escolha em grupo. Conversada, ponderada. Será que é isso mesmo o que devemos fazer? Estamos dispostos a enfrentar o que virá pela frente? Claro, pelo meio do caminho muitos desistem porque nunca houve promessa de cargos e ganhos. Não ganhamos dinheiro para panfletar, abrimos mão de muitas coisas, alguns mais outros menos, cada um dando de si o que pode. Não temos nada em troca, apenas o sonho de fazer a diferença. São homens, mulheres, jovens, idosos que acreditam que a participação é que mudará o rumo das coisas. Dividimo-nos em diversos grupos e estudamos os setores de uma prefeitura: saúde, educação, cultura, desenvolvimento econômico, segurança, esporte, etc. Convidamos pessoas a estarem conosco. Muitos aceitaram e outros não. Analisamos tudo o que já aconteceu historicamente nessa cidade, o que a população solicita, o que é preciso e o que é possível. Disto nasceu um projeto. Lembrei-me de Rubem Alves em seu livro Conversas sobre política:

De todas as vocações, a política é a mais nobre. “Vocação”, do latim vocare, quer dizer “chamado”. Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um “fazer” o vocacionado quer “fazer amor” com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada. “Política” vem de polis, “cidade”. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade.
Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oásis. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu “O que é política?”, ele nos responderia: “A arte da jardinagem aplicada às coisas públicas.” (pág.9)

Claro, não queremos os ideais gregos, que deixavam de lado as mulheres, as crianças, e todos os que eles consideravam menores. Queremos a cidade como um imenso jardim, onde há lugar para todos. Mas tenho visto de perto o que é ser mulher neste mundo ainda masculino da política. Ouvi as pessoas de partidos opostos desqualificarem, caluniarem e desprezarem nossa candidata por ser mulher. Ridicularizarem uma campanha com voluntários. Não tendo argumentos políticos, passaram a ofendê-la pessoalmente, mas ela é forte, não está sozinha e o projeto é maior do que os insultos vazios. Vejo nossos modestos panfletos de apresentação frente aos materiais absurdamente caros, de outros candidatos, para impressionarem o eleitor. Refleti muito sobre as pessoas que eu conheço pessoalmente, com as quais trabalhei direta ou indiretamente que defendem outro projeto, não porque acreditam nele, mas porque possuem cargos em comissão e são obrigados a ir bandeirar nas praças da cidade. Não, ninguém precisa defender as minhas ideias, mas sinto vergonha por ver nas redes sociais ou nas ruas, pessoas defendendo candidatos por medo de perderem seus cargos ou cargos de parentes. Claro, também não é mal ter projetos pessoais, mas a partir de um lugar que é coletivo isso é ofensivo.  Paulo Freire disse Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor. Lembro-me que quando trabalhei na prefeitura (concursada, por dez anos), algumas pessoas falavam horrores da atuação dos governantes. Qual a estratégia usada lá? "Quem não está comigo, está contra mim." Muita gente mudou de lado por medo ou por interesse pessoal. Que tipo de cultura é esta que as pessoas vão perpetuando? Sinto tristeza... Fico envergonhada também por ver a cidade inundada em obras às vésperas da eleição, na contramão de todo o discurso já feito pelo mesmo grupo contra obras eleitoreiras. Obras necessárias sim, mas que só aparecem agora. Como professora, penso no quanto ainda precisamos avançar para mudarmos a lógica dessa política velha que foi instalando raízes profundas nas pessoas. De novo chamo Rubem Alves:

Mas os inauguradores de obras, por não sonharem os sonhos do povo, em cada obra que inauguram, inauguram-se a si mesmos  - e tratam de gravar-se em placas de metal, pois sabem que se não fosse o bronze, seriam logo esquecidos. Tento descobrir transparências nos rostos políticos. Pergunto-me sobre os sonhos que eles me fazem sonhar. Mas só tenho pesadelos: rostos opacos que obstruem os horizontes. E assim, fico à espera: quando o rosto, e o corpo, e os gestos, e as cicatrizes de batalhas passadas me fizerem sorrir, sentirei que posso confiar. Por quanto tempo esperarei? Não sei...(pág. 104)



Querido Rubem, se você estivesse conosco, eu o convidaria a vir aqui, para conhecer a Ana Abreu e o projeto que aos poucos ela foi construindo com um colosso de gente. Projeto de jardinagem para uma cidade amorosa. Projeto com pilares edificados no suor de gente que acredita que mudar o mundo é mudar a si mesmo e ao seu redor. De pessoas que escutam o outro. Onde não há medo, mas respeito pelo outro. Você sorriria com certeza, porque descobriria que sim, ainda é possível confiar. É possível acreditar na beleza e na grandeza das pessoas. Quem sabe você não esteja nos vendo de longe...

domingo, 11 de setembro de 2016

aprender no encontro com o outro...


imagem google


No 1º semestre de 2016, participei das aulas de Epistemologia e Didática da FEUSP, ministradas pelo Prof. Nilson José Machado. Fiquei admirada com a coerência do professor (artigo raro em tempos atuais). Sala sempre lotada. As aulas traziam um encantamento poético, mas com pés no chão, juntando bom humor, leveza, seriedade e descobertas fundamentadas em cada palavra dita. Os encontros nos afirmavam que é possível sim, aprender com o diálogo, com a troca e manter "brilho nos olhos". Certo dia, abalou-se sobre São Paulo uma chuva imensa. O trânsito estava um caos. O professor que normalmente chega com 1h de antecedência, não apareceu. Ninguém conseguia entrar em contato com ele. Ninguém foi embora. Nenhum aluno sequer. Todos esperamos 1h30, certos de que o professor chegaria. E chegou! Eu disse para mim mesma, é essa profissional que desejo ser. Aquela da qual ninguém desiste, porque vale a pena estar lá. Há por aí um grande desafio e pensei em Rubem Alves, que disse o que eu mesma gostaria de dizer nesse instante, "Eu quero desaprender para aprender de novo. Raspar as tintas com que me pintaram. Desencaixotar emoções, recuperar sentidos".
A cada dia que passa, fico mais convencida de que a generosidade é um outro artigo raro e que pertence às pessoas de almas grandiosas. Observo que os que inflam o peito enumerando as próprias qualidades, vivem em uma bolha impenetrável, não permitindo que outros aproximem-se. São pessoas que parecem saber muito, mas desconfio que no fundo, sofrem de uma grande insegurança. Ao contrário, pessoas de grandes saberes demonstram isso não em palavras, mas em atitudes, em escutas, em olhares. Nilson é dessas grandes pessoas, que a vida coloca em nossos caminhos para pensarmos o quanto ainda precisamos melhorar, mas que é possível fazer a diferença onde estamos.
 Eu, que estava mergulhada nessa possibilidade de aula como encontro, queria muito que os professores da escola onde trabalho experimentassem essas reflexões. Fui até o Nilson e compartilhando meus pensamentos, o convidei para uma roda de conversa com os docentes e com os alunos do 5º ano (ele também escreve livros para o público infantil). Nem titubeou, no mesmo instante levantamos uma data e ele veio...
As crianças não cabiam em si de felicidade por encontrar um escritor de verdade. Alguém fora das capas dos livros. Fizeram inúmeras perguntas e confessaram depois ao próprio Nilson, que tinham caprichado na roupa para esse encontro. Foi uma lindeza! Voltaram para casa com olhos brilhando e com dois livros de presente, com direito a autógrafo.
Os professores embora mais comedidos na manifestação de carinho,  me mandaram mensagens de agradecimento pela possibilidade. Entretanto a gratidão não se reserva a mim, de forma alguma, mas à grandeza do Nilson, que saiu de São Paulo para nos encontrar. Que trouxe refresco para nosso dia, lembrando-nos que aprender e ensinar são faces da mesma moeda. Que delicadamente mostrou que os grandes momento de transformação podem acontecer no encontro com o outro e que  o diálogo é uma poderosa ferramenta na construção do conhecimento.
Salve Guimarães Rosa que nos alenta, "Mire e veja: o mais importante e bonito do mundo , é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas- mas que elas estão sempre mudando". Nosso encontro ecoou em mim a afirmação de que trabalhar com pessoas é desafiador, mas é nobre e possibilita que avancemos um pouco mais na mudança de nós mesmos e do mundo onde vivemos (é claro, é preciso estar aberto ao encontro).
Nilson, sua presença foi uma dádiva, seremos sempre gratos pela sua generosidade, pela oportunidade de ouvi-lo e aprender com você! Saímos renovados do diálogo que você propôs. Lembrei-me de um poema do Manoel de Barros, que é capaz de dizer em poucas linhas  tudo isso que experimentamos:

"A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito. 

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, 
que puxa válvulas, que olha o relógio, 
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis, 
que vê a uva etc. etc. 

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas."

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

nem todo passarinho é pardal


Recentemente, Sonya, uma amiga que nasceu e cresceu na Suíça, contou-me que quando chegou ao Brasil, ficou encantada com tantos pássaros e com a vegetação diferente, mas que ficou surpresa ao perceber que a maior parte dos brasileiros com quem falava, não conhecia o nome dos pássaros e das árvores dos lugares onde viviam. Cada vez que perguntava “Que pássaro é esse?” Alguém respondia “Ah, deve ser um pardal”! Foi quando me disse que era uma prática comum em sua cidade, nas escolas de ensino fundamental, os professores visitarem com os alunos um bosque próximo à escola. Lá eles aprendiam os nomes das árvores e dos pássaros e que iam, mesmo em dias frios ou com pequenas chuvas. Contou que esta era uma forma de reconhecimento da identidade local. Crianças e jovens de olhares curiosos fazendo perguntas.  Pensei nas inúmeras perguntas que surgem da observação de um pássaro. Onde estamos? Quem somos? Como somos? Como tratamos onde estamos? Como celebramos onde estamos? Achei linda aquela imagem. Sonya apresentou-me, dizendo sem dizer, algo que muitos teóricos defendem: o currículo deve ser elemento orgânico, vivo, cheio de sentidos e significados. Logo me lembrei da frase de um poema de Octávio Paz, citado em uma das aulas de Epistemologia do Prof. Nilson J. Machado, na FEUSP- “Liberdade é a escolha das necessidades”. Pela necessidade de organizar, escolhemos engessar os currículos e as possibilidades de aprendizagem em grades de horários, gavetas-disciplinas, conteúdos. Reproduzimos essa dureza de limites todos os dias em muitas escolas de ensino básico. As escritas nos papéis são lindas, cheias de adjetivos, coletivos e palavrórios rebuscados, mas na prática nossas árvores e pássaros são estampas de livros. Quando muito, imagens pesquisadas no grande mestre auxiliar Sr. Google. Será que nossa liberdade foi roubada pelo excesso de organização e controle?

Olhar à volta, aprender a olhar, partir de um lugar conhecido em busca de novas aprendizagens parece algo poético demais, difícil demais, demorado demais. Ou muitas vezes tratado com deferência nos projetos escritos, mas ignorado na prática. Tratamos o currículo como se fôssemos o coelho de Alice no País das Maravilhas, correndo e gritando “Não há tempo!”.  Colocamos de lado nossa capacidade, como diria Rubem Alves, de “despertar a fome” em nossos alunos, para seguir uma lista de conteúdos a serem “dados”, quase sempre do mesmo jeito, como se todo conteúdo fosse um pardal e não pássaros de plumagens e cores diferentes e vivas. Urge que olhemos para o currículo como esse lugar de reconhecimento de nossa identidade, do que somos, do que celebramos, do por que celebramos, de como celebramos. Do lugar também da nossa liberdade. Pensei nas possibilidades de criar caminhos diferentes apesar do mesmo currículo. Pensei nas escolas que conheço e na dificuldade que ainda temos em olhar os pássaros, mas sempre há uma praça, um jardim ou um pequeno bosque...

quarta-feira, 27 de abril de 2016

minhocas na cabeça



(tirada do google, se alguém 
conhecer o autor, por favor, me diga)


Para o Guilherme Rondel, que me fez sorrir...

Outro dia, decidi reunir alguns alunos para conversar. Primeiro três. Depois outros três. Mais três. E acabei conversando com algumas salas. Gosto de conversar. Porém, o que me levou ao diálogo com as turmas foi a conversa que tive com os primeiros três. Falei de como eu percebo o que é educação (estou sempre falando sobre isso). Da responsabilidade de todos os atores da comunidade escolar para que ela seja de qualidade. E por aí naveguei. Lá pelas tantas, eu disse que minha cabeça é cheia de coisas e o Guilherme prontamente me falou: É cheia de minhocas! Rimos muito. Depois olhei pra ele e disse: "isso vira um artigo acadêmico: "Da necessidade de criarmos minhocas na cabeça dos que habitam o espaço escolar." Rimos um pouco mais. 
O fato foi que voltei para casa com aquela imagem. Minhocas, como bem sabemos, são serzinhos molengas, que passeiam pela terra arejando-a, tornando-a excelente para o cultivo. O que me levou a pensar que talvez nos falte minhocas-ideias, serzinhos que não sejam rígidos, mas molengas passeadores pelo território da nossa cabeça. Que afofem nossos pensamentos e permitam o cultivo de sonhos. Pensei no poema de João Cabral de Melo Neto: 
 "Um galo sozinho não tece uma manhã: 
ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro  
de um outro galo que apanhe 
o grito de um galo antes  e o lance a outro; 
e de outros galos que com muitos outros galos
 se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos."

Parafraseando João, eu diria:

"Uma minhoca sozinha não faz uma terra adubada,
ela precisará de outras minhocas.
E de alguém que lançando minhocas para cabeças de outros
areje muitos terrenos 
e torne muitas cabeças enminhocadas
lugares adubados,
espaços férteis para o plantio de sonhos".

O grande perigo para algumas pessoas, seria encher um espaço escolar de cabeças-jardins. Florescentes lugares de acreditar em si e no outro! Sorri novamente, desta vez por pensar que o Guilherme tem toda razão, minha cabeça é cheia de minhocas, que sorte a minha!


sábado, 2 de abril de 2016

faz silêncio...




Há muitos anos fiquei fascinada com a leitura do livro "Médico de homens e de almas" de Taylor Caldwell, que narra a vida de Lucas, um dos escritores dos Evangelhos da Bíblia. Algo incrível é que a escritora consultou mais de mil livros e levou 46 anos para concluir sua pesquisa.
Segundo o livro, Lucas, de um homem que amava Deus, torna-se cético após uma grande perda e estuda medicina com o intuito de atender os miseráveis e "tirar" a morte das mãos Divinas. Acompanhamos nas páginas, suas "brigas"  com o Criador. Em um dado momento, porém,ele sente um vazio. Pela primeira vez, após anos de sua vida, ele não sente a presença Divina que tanto negava. Um silêncio interior. O livro continua e a partir daí, ele vai atrás da história do homem chamado Jesus Cristo, que ele nunca encontrou pessoalmente, mas que passa a admirar e a seguir a partir do relato de sua mãe Maria, dos amigos e seguidores. O amor de Lucas pela humanidade ainda estava lá. Deus ainda estava lá. Essas conversas foram as fontes de onde ele tirou as informações para escrever as páginas do Evangelho segundo Lucas. 
Por muito tempo, o livro ficou em minha memória como uma bela história e uma escrita poética. Sempre fui intrigada pelo período de silêncio que Lucas sentiu dentro de si. Nos últimos dias porém, essa imagem da solidão tem me acompanhado. Desde que iniciei meu trabalho com educação, escuto pessoas me dizendo que um dia eu iria desistir. Que nada muda. Que não vale a pena o esforço. Passaram-se mais de vinte e cinco anos desde a minha formatura no magistério. Foram anos sonhando com educação de qualidade, fosse ela formal ou informal. Brigando interna e externamente para que as coisas acontecessem. Errando um tanto, acertando outro. De repente, fui surpreendida por um vazio. Um silêncio dentro de mim que me levou direto a Lucas. Como se num instante, toda a crença nas possibilidades de mudança me abandonassem. Todos os dias vou ao trabalho confiante de que posso possibilitar transformações em mim e no outro. Acredito nas pessoas! Todos os dias tenho observado a escola sem reparos, sem verbas, sem ânimo. A pressão por resultado em números. O desdobramento em multitarefas pela falta de recursos humanos. A tristeza e o desrespeito instalando-se sorrateiramente. A falta de cortinas, de papéis, de cópias,de computadores, de giz, de dignidade. A falta de investimento nos profissionais. A escolha entre um mísero benefício e outro, que ao final não será benéfico de forma alguma. As lágrimas derrubadas no espaço escolar. Então, em mim, instalou-se um silêncio.Como se não houvesse nada mais lá. Nada onde me agarrar. Foi como se de repente acreditar não bastasse.  Trabalhar não bastasse. O amor não bastasse. Nessa noite escura, mesmo com um silêncio enorme ecoando em meu coração, sem ter onde me segurar, chamei Santo Agostinho, que mergulhou anos em estudos profundos e com certeza soube muito mais do que eu, para me dar a sua mão: 
"Uma vez por todas, foi-te dado
somente um breve mandamento:
Se te cala,
cala-te movido pelo amor;
se falas em tom alto, fala por amor,
se corriges, corriges por amor;
se perdoas, perdoas por amor.
Tem no fundo do coração
a raiz do amor:
dessa raiz não pode 
sair senão o bem!"


quinta-feira, 31 de março de 2016

quem tirou tudo o que estava aqui?







Quando era criança, gostava de brincar de casinha nas árvores do quintal da minha casa. Cada galho era um cômodo. A copa alargada das árvores era o telhado. Passava de um "cômodo" para o outro imaginando a cozinha, a sala, o quarto e assim por diante. Havia uma beleza e uma riqueza naqueles quartos, tortuosos pela formação de cada galho, e eu poderia passar horas "cozinhando" ou descansando na "rede da minha sala". Havia também um frescor nas imagens da minha alegria. Um conforto naquele abrigo primitivo.
Hoje, passados muitos anos, sentei-me em um banco de uma escola pública, durante o intervalo para o café de uma reunião de formação para professores coordenadores. Em frente ao banco, uma pequena árvore. E não sei, tiradas de onde, as imagens da minha experiência infantil invadiram o pensamento. Os galhos daquela árvore eram pequenos, mas a composição de sua copa alcançava e encontrava apoio no muro.
Cuidei de olhar um pouco mais para aquelas verdes folhas. Senti saudades do abrigo seguro do brinquedo da infância. Pensei em todo o meu amor pela educação que está fragilizado pelas insuficiências do espaço escolar. Há tantas faltas...Tantos "cômodos" incômodos, descuidados, sucateados, descascados, esquecidos. Cadê a alegria do encontro? Onde está o respeito? Quem pisoteou a amorosidade? Quem retirou o apoio? Naquele instante senti uma vontade imensa de me sentar embaixo da árvore e deixar a pequena copa acolher meus pensamentos e minha alma. Uma faísca da menina cheia de sonhos, que passeava feliz pelos galhos brilhou em meu coração, mas o tempo do café foi muito curto...