segunda-feira, 1 de agosto de 2016

nem todo passarinho é pardal


Recentemente, Sonya, uma amiga que nasceu e cresceu na Suíça, contou-me que quando chegou ao Brasil, ficou encantada com tantos pássaros e com a vegetação diferente, mas que ficou surpresa ao perceber que a maior parte dos brasileiros com quem falava, não conhecia o nome dos pássaros e das árvores dos lugares onde viviam. Cada vez que perguntava “Que pássaro é esse?” Alguém respondia “Ah, deve ser um pardal”! Foi quando me disse que era uma prática comum em sua cidade, nas escolas de ensino fundamental, os professores visitarem com os alunos um bosque próximo à escola. Lá eles aprendiam os nomes das árvores e dos pássaros e que iam, mesmo em dias frios ou com pequenas chuvas. Contou que esta era uma forma de reconhecimento da identidade local. Crianças e jovens de olhares curiosos fazendo perguntas.  Pensei nas inúmeras perguntas que surgem da observação de um pássaro. Onde estamos? Quem somos? Como somos? Como tratamos onde estamos? Como celebramos onde estamos? Achei linda aquela imagem. Sonya apresentou-me, dizendo sem dizer, algo que muitos teóricos defendem: o currículo deve ser elemento orgânico, vivo, cheio de sentidos e significados. Logo me lembrei da frase de um poema de Octávio Paz, citado em uma das aulas de Epistemologia do Prof. Nilson J. Machado, na FEUSP- “Liberdade é a escolha das necessidades”. Pela necessidade de organizar, escolhemos engessar os currículos e as possibilidades de aprendizagem em grades de horários, gavetas-disciplinas, conteúdos. Reproduzimos essa dureza de limites todos os dias em muitas escolas de ensino básico. As escritas nos papéis são lindas, cheias de adjetivos, coletivos e palavrórios rebuscados, mas na prática nossas árvores e pássaros são estampas de livros. Quando muito, imagens pesquisadas no grande mestre auxiliar Sr. Google. Será que nossa liberdade foi roubada pelo excesso de organização e controle?

Olhar à volta, aprender a olhar, partir de um lugar conhecido em busca de novas aprendizagens parece algo poético demais, difícil demais, demorado demais. Ou muitas vezes tratado com deferência nos projetos escritos, mas ignorado na prática. Tratamos o currículo como se fôssemos o coelho de Alice no País das Maravilhas, correndo e gritando “Não há tempo!”.  Colocamos de lado nossa capacidade, como diria Rubem Alves, de “despertar a fome” em nossos alunos, para seguir uma lista de conteúdos a serem “dados”, quase sempre do mesmo jeito, como se todo conteúdo fosse um pardal e não pássaros de plumagens e cores diferentes e vivas. Urge que olhemos para o currículo como esse lugar de reconhecimento de nossa identidade, do que somos, do que celebramos, do por que celebramos, de como celebramos. Do lugar também da nossa liberdade. Pensei nas possibilidades de criar caminhos diferentes apesar do mesmo currículo. Pensei nas escolas que conheço e na dificuldade que ainda temos em olhar os pássaros, mas sempre há uma praça, um jardim ou um pequeno bosque...

quarta-feira, 27 de abril de 2016

minhocas na cabeça



(tirada do google, se alguém 
conhecer o autor, por favor, me diga)


Para o Guilherme Rondel, que me fez sorrir...

Outro dia, decidi reunir alguns alunos para conversar. Primeiro três. Depois outros três. Mais três. E acabei conversando com algumas salas. Gosto de conversar. Porém, o que me levou ao diálogo com as turmas foi a conversa que tive com os primeiros três. Falei de como eu percebo o que é educação (estou sempre falando sobre isso). Da responsabilidade de todos os atores da comunidade escolar para que ela seja de qualidade. E por aí naveguei. Lá pelas tantas, eu disse que minha cabeça é cheia de coisas e o Guilherme prontamente me falou: É cheia de minhocas! Rimos muito. Depois olhei pra ele e disse: "isso vira um artigo acadêmico: "Da necessidade de criarmos minhocas na cabeça dos que habitam o espaço escolar." Rimos um pouco mais. 
O fato foi que voltei para casa com aquela imagem. Minhocas, como bem sabemos, são serzinhos molengas, que passeiam pela terra arejando-a, tornando-a excelente para o cultivo. O que me levou a pensar que talvez nos falte minhocas-ideias, serzinhos que não sejam rígidos, mas molengas passeadoras pelo território da nossa cabeça. Que afofem nossos pensamentos e permitam o cultivo de sonhos. Pensei no poema de João Cabral de Melo Neto: 
 "Um galo sozinho não tece uma manhã: 
ele precisará sempre de outros galos. 
De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro  
de um outro galo que apanhe 
o grito de um galo antes  e o lance a outro; 
e de outros galos que com muitos outros galos
 se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, 
para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos."

Parafraseando João, eu diria:

"Uma minhoca sozinha não faz uma terra adubada,
ela precisará de outras minhocas.
E de alguém que lançando minhocas para cabeças de outros
areje muitos terrenos 
e torne muitas cabeças enminhocadas
lugares adubados,
espaços férteis para o plantio de sonhos".

O grande perigo para algumas pessoas, seria encher um espaço escolar de cabeças-jardins. Florescentes lugares de acreditar em si e no outro! Sorri novamente, desta vez por pensar que o Guilherme tem toda razão, minha cabeça é cheia de minhocas, que sorte a minha!


sábado, 2 de abril de 2016

faz silêncio...




Há muitos anos fiquei fascinada com a leitura do livro "Médico de homens e de almas" de Taylor Caldwell, que narra a vida de Lucas, um dos escritores dos Evangelhos da Bíblia. Algo incrível é que a escritora consultou mais de mil livros e levou 46 anos para concluir sua pesquisa.
Segundo o livro, Lucas, de um homem que amava Deus, torna-se cético após uma grande perda e estuda medicina com o intuito de atender os miseráveis e "tirar" a morte das mãos Divinas. Acompanhamos nas páginas, suas "brigas"  com o Criador. Em um dado momento, porém,ele sente um vazio. Pela primeira vez, após anos de sua vida, ele não sente a presença Divina que tanto negava. Um silêncio interior. O livro continua e a partir daí, ele vai atrás da história do homem chamado Jesus Cristo, que ele nunca encontrou pessoalmente, mas que passa a admirar e a seguir a partir do relato de sua mãe Maria, dos amigos e seguidores. O amor de Lucas pela humanidade ainda estava lá. Deus ainda estava lá. Essas conversas foram as fontes de onde ele tirou as informações para escrever as páginas do Evangelho segundo Lucas. 
Por muito tempo, o livro ficou em minha memória como uma bela história e uma escrita poética. Sempre fui intrigada pelo período de silêncio que Lucas sentiu dentro de si. Nos últimos dias porém, essa imagem da solidão tem me acompanhado. Desde que iniciei meu trabalho com educação, escuto pessoas me dizendo que um dia eu iria desistir. Que nada muda. Que não vale a pena o esforço. Passaram-se mais de vinte e cinco anos desde a minha formatura no magistério. Foram anos sonhando com educação de qualidade, fosse ela formal ou informal. Brigando interna e externamente para que as coisas acontecessem. Errando um tanto, acertando outro. De repente, fui surpreendida por um vazio. Um silêncio dentro de mim que me levou direto a Lucas. Como se num instante, toda a crença nas possibilidades de mudança me abandonassem. Todos os dias vou ao trabalho confiante de que posso possibilitar transformações em mim e no outro. Acredito nas pessoas! Todos os dias tenho observado a escola sem reparos, sem verbas, sem ânimo. A pressão por resultado em números. O desdobramento em multitarefas pela falta de recursos humanos. A tristeza e o desrespeito instalando-se sorrateiramente. A falta de cortinas, de papéis, de cópias,de computadores, de giz, de dignidade. A falta de investimento nos profissionais. A escolha entre um mísero benefício e outro, que ao final não será benéfico de forma alguma. As lágrimas derrubadas no espaço escolar. Então, em mim, instalou-se um silêncio.Como se não houvesse nada mais lá. Nada onde me agarrar. Foi como se de repente acreditar não bastasse.  Trabalhar não bastasse. O amor não bastasse. Nessa noite escura, mesmo com um silêncio enorme ecoando em meu coração, sem ter onde me segurar, chamei Santo Agostinho, que mergulhou anos em estudos profundos e com certeza soube muito mais do que eu, para me dar a sua mão: 
"Uma vez por todas, foi-te dado
somente um breve mandamento:
Se te cala,
cala-te movido pelo amor;
se falas em tom alto, fala por amor,
se corriges, corriges por amor;
se perdoas, perdoas por amor.
Tem no fundo do coração
a raiz do amor:
dessa raiz não pode 
sair senão o bem!"


quinta-feira, 31 de março de 2016

quem tirou tudo o que estava aqui?







Quando era criança, gostava de brincar de casinha nas árvores do quintal da minha casa. Cada galho era um cômodo. A copa alargada das árvores era o telhado. Passava de um "cômodo" para o outro imaginando a cozinha, a sala, o quarto e assim por diante. Havia uma beleza e uma riqueza naqueles quartos, tortuosos pela formação de cada galho, e eu poderia passar horas "cozinhando" ou descansando na "rede da minha sala". Havia também um frescor nas imagens da minha alegria. Um conforto naquele abrigo primitivo.
Hoje, passados muitos anos, sentei-me em um banco de uma escola pública, durante o intervalo para o café de uma reunião de formação para professores coordenadores. Em frente ao banco, uma pequena árvore. E não sei, tiradas de onde, as imagens da minha experiência infantil invadiram o pensamento. Os galhos daquela árvore eram pequenos, mas a composição de sua copa alcançava e encontrava apoio no muro.
Cuidei de olhar um pouco mais para aquelas verdes folhas. Senti saudades do abrigo seguro do brinquedo da infância. Pensei em todo o meu amor pela educação que está fragilizado pelas insuficiências do espaço escolar. Há tantas faltas...Tantos "cômodos" incômodos, descuidados, sucateados, descascados, esquecidos. Cadê a alegria do encontro? Onde está o respeito? Quem pisoteou a amorosidade? Quem retirou o apoio? Naquele instante senti uma vontade imensa de me sentar embaixo da árvore e deixar a pequena copa acolher meus pensamentos e minha alma. Uma faísca da menina cheia de sonhos, que passeava feliz pelos galhos brilhou em meu coração, mas o tempo do café foi muito curto...

domingo, 3 de agosto de 2014

Caçadores de Saci

Salve a nossa cultura popular! 
Caçadores de saci é um curta delicioso!
Os contos populares como encantamento neste mundo às vezes tão desencantado...




http://www.youtube.com/watch?v=99zEgPgeXuM

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

agenda

Acompanhem minha agenda no site do fiandeiras da Palavra:
www.fiandeirasdapalavra.com.br


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

site do fiandeiras da palavra



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