quinta-feira, 31 de março de 2016

quem tirou tudo o que estava aqui?







Quando era criança, gostava de brincar de casinha nas árvores do quintal da minha casa. Cada galho era um cômodo. A copa alargada das árvores era o telhado. Passava de um "cômodo" para o outro imaginando a cozinha, a sala, o quarto e assim por diante. Havia uma beleza e uma riqueza naqueles quartos, tortuosos pela formação de cada galho, e eu poderia passar horas "cozinhando" ou descansando na "rede da minha sala". Havia também um frescor nas imagens da minha alegria. Um conforto naquele abrigo primitivo.
Hoje, passados muitos anos, sentei-me em um banco de uma escola pública, durante o intervalo para o café de uma reunião de formação para professores coordenadores. Em frente ao banco, uma pequena árvore. E não sei, tiradas de onde, as imagens da minha experiência infantil invadiram o pensamento. Os galhos daquela árvore eram pequenos, mas a composição de sua copa alcançava e encontrava apoio no muro.
Cuidei de olhar um pouco mais para aquelas verdes folhas. Senti saudades do abrigo seguro do brinquedo da infância. Pensei em todo o meu amor pela educação que está fragilizado pelas insuficiências do espaço escolar. Há tantas faltas...Tantos "cômodos" incômodos, descuidados, sucateados, descascados, esquecidos. Cadê a alegria do encontro? Onde está o respeito? Quem pisoteou a amorosidade? Quem retirou o apoio? Naquele instante senti uma vontade imensa de me sentar embaixo da árvore e deixar a pequena copa acolher meus pensamentos e minha alma. Uma faísca da menina cheia de sonhos, que passeava feliz pelos galhos brilhou em meu coração, mas o tempo do café foi muito curto...