sobre contar e ouvir histórias




Minha história
         Cíntia Moreira

Trago comigo, guardado em um lugar quentinho do meu coração, diversas lembranças da minha infância. Meu pai sempre me acordava no meio da noite com uma pergunta: adivinha o que é? E eu sabia que poderia ser quindim, esfiha, guarda-chuvinha de chocolate (que se eu não cuidasse minha irmã roubava) e pulava logo da cama pra comer a novidade.
Lembro-me também, era muito comum a energia faltar e minha mãe sempre tirava do fundo de alguma gaveta, pedaços de velas que ela corria pra acender e nos “salvar” da escuridão. Nesses momentos, era impossível assistir TV ou ouvir rádio, então a gente sentava pertinho e ela começava a contar histórias de quando era menina lá em Minas. Suas histórias eram reais, mas de um encantamento que me pegava pelas mãos e eu sempre era capaz de me compadecer, me alegrar, entristecer ou sentir saudades de algo que nunca tinha vivido. Já na fase adulta encontrei, por obra do destino, uma mulher que havia sido amiga de minha mãe na infância. A mulher trazia um livro de poesias que escrevera. Chorei ao ler, pois eu conhecia as personagens, os lugares e as situações sem nunca tê-los vistos e mesmo assim era como se falassem de mim.  Nunca deixei de pedir que minha mãe repetisse as histórias, conheço muitas, tenho predileções por algumas e ainda hoje me emociono como se ouvisse pela primeira vez. As dificuldades eram grandes, a gente quase não tinha dinheiro e muitas vezes faltava o básico mas nunca o essencial - amor e cuidado. As coisas mais preciosas que guardo não posso depositar em minha conta bancária; é o coração que se encarrega desse depósito e ele já perdeu a conta de quantas coisas gostosas ainda vivemos, mesmo agora, com todo o meu tamanho e já tendo minha própria casa. Ainda hoje gosto de deitar no colo da minha mãe ou de ligar pra dizer que tenho saudades. De pedir uma história. De brincar de alguma coisa - minha mãe sempre foi uma grande companheira de brincadeiras.
E é tudo isso que me faz pensar que um grande contador de histórias é aquele que fala o que lhe vai no coração. Que olha no olho. Que acredita naquilo que fala. E mais, a experiência de ouvir história em casa, deitando no colo, sentando no chão, pegando na mão, olhando no olho, faz com que a gente possa ver a alma um do outro e essa cumplicidade é para sempre.

3 comentários:

  1. Ô Cíntia, dá pra imaginar essa infância em volta da mesa com a sua mãe iluminada só pela vela ou do timbre grave do seu pai querendo falar baixo sem conseguir muito... rsrsrs

    Aos poucos a gente vai descobrindo de onde vem a pessoa, né?

    Abraço, continue sempre assim.

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  2. Oi tia cintia so a ana me adiciomna no orkut?
    o meu e-mail é paula_lunardi@hotmail.com

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  3. Adorei seu cantinho..parabénsss e adoro demais as suas histórias,PARABÉNSSS!!!!

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