domingo, 18 de setembro de 2016

sobre projetos e política


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Ultimamente todos os meus escritos apontam sobre reflexões pessoais, mas que observo, são também de outras pessoas. Moro em Jacareí, interior de São Paulo, na entradinha do Vale do Paraíba. Estamos às portas das eleições municipais e nas ruas vejo pessoas carregando bandeiras, adesivos, camisetas. Não há problema nenhum nisso, eu mesma fiz a minha escolha e assumi ir às ruas panfletar por um projeto. Eis a diferença. Apoio a única candidata mulher para o cargo majoritário, ou seja, o de prefeito. Sua candidatura, não é exatamente sua, é um projeto lindo! Partimos de um grupo de estudos e depois de um movimento pela qualidade da educação pública com educadores de setores públicos e privados que dialogavam sobre o que é possível fazer. Neste movimento percebemos que se não assumíssemos um projeto que envolvesse os poderes legislativo e executivo, nossa voz morreria na praia. Foi uma escolha em grupo. Conversada, ponderada. Será que é isso mesmo o que devemos fazer? Estamos dispostos a enfrentar o que virá pela frente? Claro, pelo meio do caminho muitos desistem porque nunca houve promessa de cargos e ganhos. Não ganhamos dinheiro para panfletar, abrimos mão de muitas coisas, alguns mais outros menos, cada um dando de si o que pode. Não temos nada em troca, apenas o sonho de fazer a diferença. São homens, mulheres, jovens, idosos que acreditam que a participação é que mudará o rumo das coisas. Dividimo-nos em diversos grupos e estudamos os setores de uma prefeitura: saúde, educação, cultura, desenvolvimento econômico, segurança, esporte, etc. Convidamos pessoas a estarem conosco. Muitos aceitaram e outros não. Analisamos tudo o que já aconteceu historicamente nessa cidade, o que a população solicita, o que é preciso e o que é possível. Disto nasceu um projeto. Lembrei-me de Rubem Alves em seu livro Conversas sobre política:

De todas as vocações, a política é a mais nobre. “Vocação”, do latim vocare, quer dizer “chamado”. Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um “fazer” o vocacionado quer “fazer amor” com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada. “Política” vem de polis, “cidade”. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade.
Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oásis. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu “O que é política?”, ele nos responderia: “A arte da jardinagem aplicada às coisas públicas.” (pág.9)

Claro, não queremos os ideais gregos, que deixavam de lado as mulheres, as crianças, e todos os que eles consideravam menores. Queremos a cidade como um imenso jardim, onde há lugar para todos. Mas tenho visto de perto o que é ser mulher neste mundo ainda masculino da política. Ouvi as pessoas de partidos opostos desqualificarem, caluniarem e desprezarem nossa candidata por ser mulher. Ridicularizarem uma campanha com voluntários. Não tendo argumentos políticos, passaram a ofendê-la pessoalmente, mas ela é forte, não está sozinha e o projeto é maior do que os insultos vazios. Vejo nossos modestos panfletos de apresentação frente aos materiais absurdamente caros, de outros candidatos, para impressionarem o eleitor. Refleti muito sobre as pessoas que eu conheço pessoalmente, com as quais trabalhei direta ou indiretamente que defendem outro projeto, não porque acreditam nele, mas porque possuem cargos em comissão e são obrigados a ir bandeirar nas praças da cidade. Não, ninguém precisa defender as minhas ideias, mas sinto vergonha por ver nas redes sociais ou nas ruas, pessoas defendendo candidatos por medo de perderem seus cargos ou cargos de parentes. Claro, também não é mal ter projetos pessoais, mas a partir de um lugar que é coletivo isso é ofensivo.  Paulo Freire disse Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor. Lembro-me que quando trabalhei na prefeitura (concursada, por dez anos), algumas pessoas falavam horrores da atuação dos governantes. Qual a estratégia usada lá? "Quem não está comigo, está contra mim." Muita gente mudou de lado por medo ou por interesse pessoal. Que tipo de cultura é esta que as pessoas vão perpetuando? Sinto tristeza... Fico envergonhada também por ver a cidade inundada em obras às vésperas da eleição, na contramão de todo o discurso já feito pelo mesmo grupo contra obras eleitoreiras. Obras necessárias sim, mas que só aparecem agora. Como professora, penso no quanto ainda precisamos avançar para mudarmos a lógica dessa política velha que foi instalando raízes profundas nas pessoas. De novo chamo Rubem Alves:

Mas os inauguradores de obras, por não sonharem os sonhos do povo, em cada obra que inauguram, inauguram-se a si mesmos  - e tratam de gravar-se em placas de metal, pois sabem que se não fosse o bronze, seriam logo esquecidos. Tento descobrir transparências nos rostos políticos. Pergunto-me sobre os sonhos que eles me fazem sonhar. Mas só tenho pesadelos: rostos opacos que obstruem os horizontes. E assim, fico à espera: quando o rosto, e o corpo, e os gestos, e as cicatrizes de batalhas passadas me fizerem sorrir, sentirei que posso confiar. Por quanto tempo esperarei? Não sei...(pág. 104)



Querido Rubem, se você estivesse conosco, eu o convidaria a vir aqui, para conhecer a Ana Abreu e o projeto que aos poucos ela foi construindo com um colosso de gente. Projeto de jardinagem para uma cidade amorosa. Projeto com pilares edificados no suor de gente que acredita que mudar o mundo é mudar a si mesmo e ao seu redor. De pessoas que escutam o outro. Onde não há medo, mas respeito pelo outro. Você sorriria com certeza, porque descobriria que sim, ainda é possível confiar. É possível acreditar na beleza e na grandeza das pessoas. Quem sabe você não esteja nos vendo de longe...

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