sábado, 2 de abril de 2016

faz silêncio...




Há muitos anos fiquei fascinada com a leitura do livro "Médico de homens e de almas" de Taylor Caldwell, que narra a vida de Lucas, um dos escritores dos Evangelhos da Bíblia. Algo incrível é que a escritora consultou mais de mil livros e levou 46 anos para concluir sua pesquisa.
Segundo o livro, Lucas, de um homem que amava Deus, torna-se cético após uma grande perda e estuda medicina com o intuito de atender os miseráveis e "tirar" a morte das mãos Divinas. Acompanhamos nas páginas, suas "brigas"  com o Criador. Em um dado momento, porém,ele sente um vazio. Pela primeira vez, após anos de sua vida, ele não sente a presença Divina que tanto negava. Um silêncio interior. O livro continua e a partir daí, ele vai atrás da história do homem chamado Jesus Cristo, que ele nunca encontrou pessoalmente, mas que passa a admirar e a seguir a partir do relato de sua mãe Maria, dos amigos e seguidores. O amor de Lucas pela humanidade ainda estava lá. Deus ainda estava lá. Essas conversas foram as fontes de onde ele tirou as informações para escrever as páginas do Evangelho segundo Lucas. 
Por muito tempo, o livro ficou em minha memória como uma bela história e uma escrita poética. Sempre fui intrigada pelo período de silêncio que Lucas sentiu dentro de si. Nos últimos dias porém, essa imagem da solidão tem me acompanhado. Desde que iniciei meu trabalho com educação, escuto pessoas me dizendo que um dia eu iria desistir. Que nada muda. Que não vale a pena o esforço. Passaram-se mais de vinte e cinco anos desde a minha formatura no magistério. Foram anos sonhando com educação de qualidade, fosse ela formal ou informal. Brigando interna e externamente para que as coisas acontecessem. Errando um tanto, acertando outro. De repente, fui surpreendida por um vazio. Um silêncio dentro de mim que me levou direto a Lucas. Como se num instante, toda a crença nas possibilidades de mudança me abandonassem. Todos os dias vou ao trabalho confiante de que posso possibilitar transformações em mim e no outro. Acredito nas pessoas! Todos os dias tenho observado a escola sem reparos, sem verbas, sem ânimo. A pressão por resultado em números. O desdobramento em multitarefas pela falta de recursos humanos. A tristeza e o desrespeito instalando-se sorrateiramente. A falta de cortinas, de papéis, de cópias,de computadores, de giz, de dignidade. A falta de investimento nos profissionais. A escolha entre um mísero benefício e outro, que ao final não será benéfico de forma alguma. As lágrimas derrubadas no espaço escolar. Então, em mim, instalou-se um silêncio.Como se não houvesse nada mais lá. Nada onde me agarrar. Foi como se de repente acreditar não bastasse.  Trabalhar não bastasse. O amor não bastasse. Nessa noite escura, mesmo com um silêncio enorme ecoando em meu coração, sem ter onde me segurar, chamei Santo Agostinho, que mergulhou anos em estudos profundos e com certeza soube muito mais do que eu, para me dar a sua mão: 
"Uma vez por todas, foi-te dado
somente um breve mandamento:
Se te cala,
cala-te movido pelo amor;
se falas em tom alto, fala por amor,
se corriges, corriges por amor;
se perdoas, perdoas por amor.
Tem no fundo do coração
a raiz do amor:
dessa raiz não pode 
sair senão o bem!"


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